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Hasta la vista Baby ou a manipulação subliminal da música de cinema
14 MARÇO 2013

Vítor Rua – [compositor, improvisador, musicólogo]

Resumo ou a única parte que as pessoas lêem dos ensaios!

Nos tempos que correm, é em certa publicidade, séries, cartoons e filmes, que uma grande camada de pessoas escuta sons organizados musicais que normalmente não ouviria. Abordagem da manipulação subliminal de certa música de filme, bem como da importância da sonoplastia em certo cinema de acção.


#01_ Legitimated, Middlebrow & Popular taste

Segundo Bordieu, o gosto de uma pessoa por cinema, está intimamente ligado com o seu estrato social e background. Bordieu classifica-o em três categorias diferentes, sendo que a primeira é o legitimated taste (alguém que escolhe ver Bergman ou Kubrick). Bordieu acredita que as pessoas com este gosto são mais compatíveis socialmente com as classes dominantes. A segunda categoria é o gosto middlebrow. Este gosto, é uma média entre dois extremos; o lado mais legitimado de um cinema mais popular. A terceira categoria é o popular taste. Refere-se a pessoas que gostam de certo cinema, consoante aquilo que a TV lhes dá a ver. Alguns chamarão a este, um gosto não-refinado.
Bordieu acredita, por exemplo, que os professores interagem melhor com crianças que possuem o gosto "legitimado" e, que o gosto está ligado às classes sociais. Assim, e de acordo com Bordieu, quanto mais alta for a classe social de um estudante, mais essa pessoa tem a possibilidade de ter sucesso escolar. Esta categorização das classes sociais, já vem de trás:

Dwight MacDonald, parte da distinção de três níveis intelectuais, high, middle e lowbrow (distinção que deriva daquela entre highbrow e lowbrow, (proposta por Van Wyck Brooks, em America´s Coming of Age), mudando-lhes a denominação de acordo com um intento polémico mais violento: contra as manifestações de uma arte de élite e de uma cultura propriamente dita, erguem-se as manifestações de uma cultura de massa que não é tal, e que por isso, ele não chama de mass culture, mas de masscult, e de uma cultura media, pequeno burguesa, que ele chama de midcult. (Eco, Umberto, 2005:37)

Para as pessoas que pertencem actualmente à terceira categoria (popular taste), é em certa publicidade, séries, cartoons e nos filmes, que escutam sons organizados musicais que normalmente não ouviriam. Ou seja, no tal média que Bordieu refere, como sendo o formador do gosto desse indivíduo: a TV. E o que se pode ver/ouvir na TV nos dias de hoje, em que, estas mesmas pessoas, possam ter um "deslumbre" do que vêem as"outras" pessoas do legitimated taste? É sobre isso que me irei debruçar de seguida.


#02_2001 Odisseia de Sons Organizados


Alguém, da categoria do popular taste, que sintonize uma canal de TV, que esteja prestes a emitir o filme de Stanley Kubrick, 2001 Odisseia no Espaço, vai poder assistir a uma obra prima do cinema e ouvir uma míriade de composições musicais que, normalmente, não veria nem ouviria em circunstâncias normais. Veja-se que, a nível musical, o filme inicia com a a palavra overture e a peça Atmosferes do compositor György Ligeti; no genérico da MGM, ouvimos Richard Strauss e a obra Also Sprach Zaratustra; durante a Alvorada do Ser Humano a música é inexistente, dando origem a uma sonoplastia concretista constituída de sons da natureza: vento, pássaros e ruídos dos antropóides.
Com a aparição do monolito surge de novo a música de Ligeti; a descoberta do osso de um animal como arma (símbolo de descoberta e poder), faz regressar de novo a música de Richard Strauss; o homem-macaco atira o osso ao ar e quando este começa a descer, transforma-se numa nave espacial que desliza em silêncio sobre a tela, para que com o zoom da câmara sobre a nave, se comece a ouvir as primeiras notas do Danúbio Azul de Johann Strauss Jr.; posteriormente quando uma nave passa sobre a Lua, ouvimos em surdina, o coral, Lux Aeterna, de György Ligeti; já na Lua, em flash back, os austronautas aproximam-se do monolito, numa aproximação semelhante à dos antropóides na Terra e regressa – como num leitmotiv – a música atmospheres de Ligeti; uma outra nave voa agora em direção a Júpiter e ouvimos a peça da Suite Gayaneh, de Khatchaturian; para a palavra Entreato, Kubrick reservou de novo a música de Ligeti, que acompanha todo o aparato do desligar do computador Hal, bem como toda a cena rumo ao infinito; no final, regressamos a Also Sprach Zaratustra.
Como podemos observar, este filme contém música clássica/erudita, normalmente reservada às categorias do legitimated e middlebrow taste. E aqui, num só filme e no conforto da sua casa (na TV), eis estas pessoas do popular taste, a usufrirem (mesmo que sem o saberem), de compositores como Johann e Richard Strauss, Ligeti ou Khatchaturian. Onde iriam estas pessoas, ouvir Ligeti nas suas vidas? Escolhi este filme do Kubrick, por ser um caso paradigmático, no uso de música clássica/erudita.


#03­_Psicho Killer

Uma mulher toma um banho de duche e, conseguimos ver através da cortina de plástico um vulto que se aproxima; só se ouve o som de água a correr; uma mão do vulto puxa a cortina e ouve-se o som das argolas de plástico a deslizarem no metal; a mulher finalmente vê o homem e grita; o homem levanta uma faca e começa a esfaquear a mulher que vai gritando de dor e dizendo "No"; ouve-se o som da faca a penetrar na carne vezes consecutivas; a água continua a correr; o homem pára de esfaquear a mulher e sai de cena; a mulher, em silêncio e quase sem vida, deixa-se escorregar e com a mão tenta agarrar-se à cortina e arranca-a; ouve-se o ruído das argolas a soltarem-se da vara de metal e o ruído do plástico; a mulher cai no chão sem vida; ruído da água a correr.
Esta cena que acabei de relatar, é a mística cena do chuveiro, do filme de Hitchcok Psicho. Só que relatei a cena apenas descrevendo os sons concretos, ou seja, a sonoplastia do filme. Mas esta cena, na realidade é acompanhada de música. Música essa que entra no preciso momento em que o vulto abre a cortina com a faca na mão.
A música que surge é a de cordas em staccato com um som estridente agudo repetitivo e que acompanha toda a cena do esfaqueamento. Apenas quando o assassino se retira, a música muda de clima: em tom dramático dá dois acordes, e que se mantêm repetitivamente durante o deslizar do corpo da mulher; inicia-se então um rallentando nesses dois acordes até ao momento em que a mulher se agarra na cortina e, aí a música pára, para ficar somente o som concreto da água a correr.
Assistirmos a esta cena sem música e com música, é como beber água ou vinho, ou seja, é totalmente diferente. A força dramatúrgica que esta música de Bernhard Hermann transmite a esta cena é tal, que quando a vemos despida desta, quase transforma aquilo que se tornou num ícone do cinema, numa cena quasi vulgar. A música de Hermann, sublinha de forma exemplar, por um lado a surpresa e o horror que são vísiveis no rosto da vítima e por outro, o ritmo e a cadência das facadas. Esta cena mostra-nos convencidamente, o poder que a música pode representar no cinema, ampliando e reforçando de forma quase imaginável, a dramaturgia imagética.


#04­_Private Jokes

No filme já referenciado anteriormente de Stanley Kubrick, 2001 Odisseia no Espaço, o nome do computador protagonista desse filme é Hal. Ora, se a cada letra do nome Hal, acrescentarmos a letra que lhe vem imediatamente a seguir no alfabeto obtemos o seguinte:
H+ (a letra seguinte no alfabeto)= I
A+ (a letra seguinte no alfabeto)= B
L+ (a letra seguinte no alfabeto)= M
ou seja: IBM. Ora IBM é o nome de uma conhecida marca de computador (uma das únicas da altura e a mais conhecida pelo público). São raras as pessoas que se apercebem desta curiosidade. Curiosidade esta, sempre desmentida pelo autor do romance Arthur C. Clarke. Mas a probablidade disso acontecer acidentalmente é de uma para um milhão.
Assim, poderemos dizer com certeza, que foi um acto propositado e, que só não foi assumido, por um desentendimento que terá havido com a empresa IBM, no sentido de patrocionarem parte do filme. Sendo então do desconhecimento do público e, desmentido pelos próprios autores, este facto funciona assim, como uma private joke, entendida somente por uns poucos.
Na música, também existem muitos casos, onde nos surgem estas private jokes. Uma delas, dá-se no filme de Ridley Scott, Blade Runner, onde a música foi composta e interpretada pelo Vangelis. Neste filme – e sem entrar em pormenores detalhados do argumento do filme – existem uns seres, os replicants, que são uma espécie de humanos, construídos pelo ser humano, para efectuarem tarefas pelos humanos. Esses seres, nascem (são fabricados), com uma idade específica e com um prazo de vida estipulado pelo construtor. Outra peculariedade, é que possuem uma memória que lhes é implantada e, portanto, falsa, mas para lhes dar a impressão que têm um passado. Assim, são várias as vezes em que no filme, é dita a palavra "memory". E, sempre que isso acontece, ouvese uma música – uma voz cantada -, que serve de leitmotiv, para todas as vezes que a palavra "memory" é pronunciada. Ora, essa voz – descobri depois de muitas audições, é a voz do cantor Demis Roussos (um cantor da chamada música "ligeira"), mas em tape reverse. Acontece que na juventude de Vangelis, ele fez parte de um grupo, os Aphrodite Child, em que faziam parte – entre outros -, Vangelis e Demis Roussos. Desta forma Vangelis estabelece uma espécie de relação entre a sua própria memória (o seu passado musical), e a ausência real de memória dos replicants, de forma a que sempre que, durante todo o filme, alguém diz a palavra memory, essa recorrente voz do seu passado, surge no filme. Devem ser raras as pessoas a aperceberem-se deste facto. Dessa forma, esta mensagem subliminal, pode ser encarada como um exemplo da tal private joke a que me refiro neste capítulo. Uma meta-memória.
Outro exemplo, mas desta feita, no que toca à sonoplastia, temos o filme do Hitchcock, Frenzy, onde existe uma cena em que se vê um carro a subir por uma montanha até ao cimo, mas onde o som do motor do carro, diminui de volume conforme se vai aproximando, em vez do que seria suposto acontecer, que seria, aumentar de volume. Ou seja, um crescendo em vez de um diminuendo. Esta, pode ser entendida como mais uma – das muitas – private jokes, a que Hitchcock já nos habituou, pois sendo aparentemente óbvio o facto, poucas serão as pessoas a aperceberem-se desse engenhoso e espécie de, efeito Dopller.


#05_O Automóvel Coro

É também na publicidade, que as pessoas que pertencem ao popular taste, podem ouvir tipos de música que noutras circunstâncias nunca ouviriam. Nem que seja, por "semelhança", ou "cópia" do modelo intitulado de "arte culta" (Dahlhaus, 2009). Num anúncio do automóvel Honda vemos um coro numa garagem e um maestro; uma
imagem do automóvel parado e em movimento é-nos dado numa projecção; o coro mimetiza todos os sons produzidos pelo automóvel: o motor, o vidro eléctrico a descer, o vento, a chuva, o leitor de cds, o limpa-vidros. Tudo só com a voz. Este anúncio passou em todas as tvs nacionais e mundiais. Um exemplo de música vocal, contemporânea e original (para o seu objectivo: um anúncio televisivo).
Agora vejamos um exemplo – na música "culta" – da composição Stripsody da Cathy Berberian, onde a partitura é pictográfica, com desenhos de animais, vento, superhomem, máquinas; e onde a voz mimetiza todos esses sons. Só com a voz.
Dois exemplos, um do popular taste, outro do legitimated taste, mas muito semelhantes. E a minha conclusão é: as pessoas que nunca teriam oportunidade (nem terão) de ver ou ouvir a obra da Cathy Berberian, podem neste anúncio ter uma versão, talvez mais acessível e, pelo menos, mais mediática do que a da Berberian, mas muito idêntica na forma, pese o facto de uma (a da Cathy), ter sido escrita muitos anos antes da outra. Daí o apropriamento das invenções das obras do legitimated taste, pelo popular taste.

Os espectadores deste anúncio da Honda, vivem uma experiência sonora próxima dos ideais da chamada música concreta e ao mesmo tempo têm um glimpse do que é a escrita vocal coral da nossa Era.


#06_Tom & Jerry versus Black & Decker

Além do cinema e da publicidade, é nos cartoons que essa tal comunidade de pessoas que nunca teria oportunidade de ouvir – por exemplo – música concreta, pode realizar esse propósito. É nos cartoons, especialmente na sonoplastia destes, que vemos exemplos de uso de técnicas de música acusmática. O som de uma porta a bater, o lavar dos dentes, uma janela a partir, o som do vento, da chuva, o som de um automóvel a derrapar, tudo isto são exemplos de sons concretos. A técnica e os métodos é que podem variar: nuns casos podem os sonoplastas recorrer a sons pré-existentes de uma qualquer sonoteca, ou noutros casos, pode recorreer-se à bruitage. É a verdadeira música acusmática: nãosabemos de onde provém o som. O som de uvas a cairem no chão, é realizado pelo bater das unhas numa lata de espinafres. A nível musical, temos uma variedade de estilos musicais, desde imitações a la Beethoven a música hip-hop série B. Onde reside a força dos cartoons – a nível sonoro -, é quanto a mim na sua sonoplastia.


#07_James Last but not the Lizt

Se estas letras impressas neste livro, fossem aparecendo gradualmente, acompanhadas de sons diversos (gato a miar, porta a ranger, derrapagem, buzina, nota de vibrafone, e fosse o anúncio de uma impressora ou computador; ou se fosse o início de um filme com um plano de umas mãos que iam escrevendo este texto enquanto se ouvia o som das unhas dos dedos a baterem nas teclas; ou ainda um cartoon em que as letras tinham vida própria e iam dançando sobre a folha de papel com o som do rabiscar de uma esferográfica Bic) , seriam exemplos de sons organizados, que normalmente uma camada da população, nunca ouviria noutras circunstâncias (concertos de música acusmática ou concreta, em cds, ou em ambientes que passassem esse tipo de música). Assim, quando desligamos o volume nos intervalos dos anúncios na tv, ou quando ignoramos certos cartoons ou filmes, certas pessoas estão a perder momentos que são as únicas oportunidades que têm legitimated taste.


Referências bibliográficas
Bourdieu, Pierre – A Distinção. Uma Crítica Social Da Faculdade Do Juízo, Edições 70, 2010.
Chion, Michel, Le Son, Armand Colin, 2004. Eco, Umberto, Apocalípticos e Integrados, São Paulo, Perspectiva, 2005.
Eggebrecht, Hans e Dahlhaus, Carl, O que é a música?, Texto&Grafia, 2009.
Rua, Vítor, A Musicologia na Era do Porquinho Babe, Bubok, 2009.
Wright, Karlin – On The Track, Shirmer Boocks, 1990.